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Nossas velhas certezas

metamorfose
Foto: Martin Redlin - Pixabay
"Eu prefiro ser Essa metamorfose ambulante Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo” - Raul Seixas

Publicado em 19/10/2020

Se você tem muitas certezas, você provavelmente está mal informado.

O mundo está cada vez mais complexo e como essa complexidade é difícil ser decifrada a gente acaba muitas vezes ancorando nosso conhecimento numa espécie de ilha onde nossas certezas não são questionadas.

Os cientistas chamam de isso de viés de confirmação: consumir apenas aquele tipo de informação que reforça o que a gente já tem tendência a acreditar. Por exemplo, se eu acho que o amarelo é a melhor cor do mundo, eu só leio as notícias que dizem que o amarelo é legal.

E isso é piorado pela internet, porque a inteligência artificial percebe o nosso padrão de navegação e nos direciona apenas aquele tipo de informação, e então ela dá cada vez mais do mesmo pra gente consumir. E então de repente, sem perceber, parece que o mundo inteiro gosta de amarelo como você.

O problema é que é intelectualmente saudável que a gente seja exposto a pontos de vista divergentes ou assuntos que a princípio não nos ‘interessam’. O consumo de mais do mesmo pode gerar a falsa sensação de que vivemos numa tribo homogênea, aumentando os muros com os quais construímos nossas ilusórias certezas. Em casos mais agudos, isso pode virar uma espécie de totalitarismo intelectual que pode dar vazão a extremismos e intolerância para aceitar as divergências típicas de uma sociedade democrática. Se você está nas redes sociais, vai entender o que estou dizendo.

E como a gente pode se blindar ou minimizar isso?

Consumindo e absorvendo a pluralidade de ideias, visões e conceitos que compõem o mosaico do mundo. Lendo livros, por exemplo. Mas além de mesclar a leitura de livros técnicos com obras ficcionais e clássicos da literatura, tente se expor a opiniões e leituras que de certa forma contradizem suas inclinações mais óbvias.

E isso deve se estender para além dos livros, até chegar onde importa, que é a vida real: ouvir as pessoas (mesmo que não concorde com elas) e não apenas o canto sedutor do próprio umbigo.

Não é fácil consumir informação de fontes divergentes, sobretudo quando ela se choca com aquele referencial interno do que a gente acha que é o certo.

É mais fácil ficar na nossa cápsula, cultivando nossas bolhas de certezas, achando não apenas que o amarelo é a cor mais legal do mundo, mas que todo o mundo é amarelão como a gente.

Consumir uma informação divergente não significa que você será volúvel. Mas você vai ficar mais tolerante e provavelmente mais inteligente também, porque sua escolha será baseada num conhecimento mais profundo da realidade e não numa miopia causada pela preguiça de estudar e pela intolerância de compreender o outro lado.

E se você tiver preguiça de estudar e intolerância de ouvir o outro lado, um dia você será merecedor dos adjetivos reducionistas que as tribos rivais acéfalas cospem nos adversários.

E você pode ser muito mais do que isso.
Evite o viés de confirmação pra não se tornar um amarelão.

Abra a mente, se informe e tente ter uma visão o mais abrangente das coisas antes de se fechar em suas certezas pétreas. O mundo está mudando tão rápido que o certo de hoje pode ser o errado de amanhã e uma velha opinião formada sobre tudo pode ser apenas isso: uma opinião velha.

E viva o amarelo, o azul, o roxo, o rosa, o preto, o cinza e a cor de burro quando foge.

E viva a genial metamorfose ambulante do velho e bom Raul, que era Maluco, mas era uma Beleza.

Leia também: Coragem para ser original

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Autor(a)

Alexandre Correa Lima

Alexandre Correa Lima

Alexandre Correa Lima é professor da FGV e ministra palestras em todo o Brasil, abordando temas como inovação, criatividade, longevidade e tendências.

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