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Saúde e qualidade de vida corporativa

Ambientes de descompressão e ações de saúde melhoram efetivamente a produtividade do colaborador

Nos últimos anos, pudemos perceber uma mudança histórica e radical de paradigmas no mundo empresarial. Com a chegada de uma geração mais engajada, informada e exigente ao mercado de trabalho, as corporações se viram obrigadas a transformar suas culturas organizacionais visando o bem-estar do colaborador em todos os âmbitos.

O reflexo dessas transições foi sentido numericamente: um profissional valorizado e feliz se mostrou muito mais produtivo. Unindo o útil ao agradável, as empresas passaram a investir cada vez mais em ações de saúde e qualidade de vida, ambientes de descompressão e outros tipos de estímulos no dia a dia corporativo.

O chamado QVT (Qualidade de Vida no Trabalho) se tornou uma obrigatoriedade para satisfação da equipe e retenção de talentos. O que antes dependia apenas do setor de recursos humanos passou a ser responsabilidade de todos os envolvidos, mas principalmente de uma liderança empática e inspiradora.

Quebrando padrões

“Os relacionamentos humanos sofreram muitas alterações nos últimos anos em grande parte pela presença da tecnologia em todos os aspectos da vida cotidiana. A conexão constante, o acesso à informação em tempo real e o uso da tecnologia para estabelecer novas formas de relacionamento afetivo ou comercial mudaram sensivelmente o meio no qual uma empresa está inserida”, explica Mylena Maurutto, diretora da Lendico, fintech de empréstimo pessoal. “Em paralelo, uma nova geração chegou ao mercado de trabalho altamente conectada, criativa, diversa, inovadora e que dá bastante valor ao propósito de sua atuação profissional.  Era natural que em algum momento tudo isso redefinisse o relacionamento entre empresas e funcionários e gerasse uma revolução cultural nas empresas”.

Uma nova era corporativa está se instalando a cada dia mais rapidamente. Quebrar padrões organizacionais e se desapegar de velhos modelos de negócios e relações entre gestores e colaboradores faz parte de uma evolução empresarial natural. A preocupação com a saúde e bem-estar dos funcionários são apenas alguns aspectos da mudança para um cenário que se aproxima.

“Por mais que o estudo da produtividade e da motivação dentro das empresas já seja secular o recente foco na Cultura Organizacional tomou força e acabou se expandindo mundo a fora principalmente pelo impulso que as grandes empresas de tecnologia começaram a dar para em suas empresas. Foi entendido que uma grande Cultura é realmente uma fonte de diferença tanto na atração como na retenção de talentos cada vez menos focados em apenas aspectos financeiros de trabalho”, afirma Almir Neves, CEO da Click Conhecimento e especialista em criatividade e inovação disruptiva.

Almir Neves, CEO da Click Conhecimento

O papel do líder

Assumindo um protagonismo ainda maior dentro das corporações, os gestores passaram a ser responsáveis também por seus colaboradores. Dividindo a função com os recursos humanos, a liderança agora precisa trabalhar em conjunto com o setor para inovar e oferecer um ambiente harmonioso e estruturado.

“Antes o RH era visto como o principal responsável por atuar na cultura empresarial, engajamento de pessoas, etc. Hoje os gestores são claramente vistos como os principais responsáveis. Não adianta a empresa ter um programa super bacana institucional ou fazer ações mensais, semanais se no dia-a-dia o colaborado não tem um ambiente saudável e que impulsione os resultados, exatamente por esse motivo a liderança é essencial para que os valores e a cultura das organizações se estendam para o dia-a-dia”, pontua Karina Callegari, gerente de RH da Steck Indústria Elétrica. “O colaborador é extremamente importante, principalmente quando falamos de segurança, seguir os processos e respeitar os próprios limites (quando falamos em stress, por exemplo) são fundamentais para a qualidade na vida corporativa”.

Sendo os maiores interessados no êxito das empresas, os líderes estreitaram as relações com os colaboradores. Impondo menos pressão por resultados, os gestores perceberam que ritmos inadequados, metas inviáveis e desgaste psicológico são nocivos à saúde tanto do profissional quanto do financeiro da companhia.

Karina Calegari, Gerente de RH na Steck Indústria Elétrica

Descomprimindo a rotina

Horários flexíveis, casual day, programas de capacitação, alimentação saudável, salas de jogos e massagem. Essas são algumas das ações mais comuns encontradas atualmente nas empresas. Oferecer um ambiente leve que equilibre a qualidade de vida física e mental dos colaboradores é uma das estratégias de engajamento.

“No Grupo Comunique-se, nós possuímos o Programa Evolua, uma iniciativa que promove a qualidade de vida dos nossos colaboradores os apoiando na busca do equilíbrio dos sete pilares que abrangem o ser humano: saúde social, intelectual, financeira, física, profissional, emocional e espiritual. Como parte do Programa, estabelecemos convênios com tipos variados de serviços, como academias, restaurantes, instituições educacionais e outras que são disponibilizadas aos colaboradores com condições muito especiais. Essa rede de serviços inclui, por exemplo, duas clínicas parceiras atuando com terapias diversas e profissionais de psicologia”, conta Mônica Paiva, diretora de Gente e Gestão, do Grupo Comunique-se.

Monica Paiva, diretora de Gente e Gestão do Grupo Comunique-se

É importante frisar que não existe receita certa. A descompressão precisa se adequar a cultura e rotina de cada empresa sem prejudicar o rendimento e os resultados. “É fundamental entender quais são os tipos de funcionários que a empresa tem e como adaptar-se a eles. Entregar soluções personalizadas, mostrar que eles são a parte mais importante e que a empresa está ao seu lado, em todos os momentos. Temos um clube de pontos onde o funcionário pode trocar bônus acumulado, tanto por gift cards e descontos em lojas, quanto por banco de horas, dias de folga e até bônus na remuneração”, explica Vinicius Jorge da Affinibox, startup que desenvolve sistemas de clubes de vantagens.

“O próprio ambiente de trabalho pode ter um clima de descompressão e por isso as relações interpessoais, os vínculos entre colegas de trabalho são tão importantes. Passamos muito tempo do dia na empresa, e esse ambiente deve ser leve. No escritório de São Paulo da Steck criamos o Disruption Spot (local com jogo de dardos, basquete e boneco de boxe), não é apenas um lugar de descompressão, mas também voltado para a criatividade. Os Treinamentos também são um momento de sair do curso normal. Semanas de Diversidade e Inclusão, Conhecimento, Saúde, Segurança ajudam a ter descompressão, mas ainda insisto que o trabalho com a liderança pela busca ao ambiente harmônico é o mais efetivo”, pontua Karina Callegari.

Ação e reação

Quando falamos de pessoas e não de máquinas, toda a ação gera uma reação. É claro que a qualidade de vida no ambiente de trabalho não é apenas uma responsabilidade da empresa, mas dos funcionários que movimentam o dia a dia daquele local. Todos têm a oportunidade de transformar situações.

Um ambiente agradável e favorável, em clima de cooperação mútua e valorização das capacidades individuais e coletivas resultam em melhores desempenhos das atividades. De nada adianta um funcionário exigir um cenário amigável se este é o primeiro a não colaborar para isto.

“Os colaboradores, por sua vez, devem ter paixão pelo que fazem. O prazer pelo trabalho contribui bastante para uma atmosfera positiva e, claro, para a Qualidade de Vida no Trabalho. Devem ter visão sistêmica, saberem trabalhar em equipe, terem foco, flexibilidade, proatividade e uma comunicação eficiente. Devem nutrir boas relações interpessoais com os colegas e superiores, dando suas parcelas pessoais de contribuição para fomentar um ambiente melhor e mais favorável à execução das ações e solução dos desafios”, pontua Mônica.

“É importante ter maturidade para lidar com a liberdade e pensar sempre em entregar resultados significantes”, afirma Vinicius Jorge.

Vinícius Jorge, Affinibox

Quando a relação ganha-ganha acontece, os números aparecem. Pequenas correções no dia a dia sem investimentos significativos podem gerar saltos inimagináveis nos resultados e de quebra aumentar a satisfação do funcionário em relação a empresa.

Os benefícios não se limitam ao interno. Consumidores cada vez mais exigentes tendem a dar preferência a marcas de produtos e serviços que valorizam os funcionários e possuem políticas internas humanistas e empáticas.

“Por trás de uma tomada de decisão, venda ou realização de um projeto tem um ser humano, que se não se sente incluído, se está com burnout ou não se sente reconhecido pelo trabalho realizado pode apresentar performance reduzida ou até deixa a companhia. E todo investimento feito naquela pessoa, como treinamento, tempo etc., são perdidos”, explica Karina.

“Nas pesquisas de clima, estamos constatando que as nossas iniciativas têm resultado em mais prazer para trabalhar e maior envolvimento dos colaboradores com as atividades, e, principalmente, com a missão, a visão e os valores da empresa. Estamos conquistando melhores resultados, produtividade, desempenho e, claro, satisfação”, afirma a diretora do Grupo Comunique-se.

“Essas ações diminuem o turnover da empresa, incentivam um ambiente criativo e fazem os funcionários serem mais produtivos. Isso traz, por consequência, melhores resultados nos nossos indicadores da empresa”, complementa Mylena Maurutto.

Mylena Maurutto, diretora da Lendico

Saúde física e mental

Quando falamos em qualidade de vida corporativa devemos pensar além da rotina estressante e suas consequências em números e produtividade. As condições físicas e mentais tanto de colaboradores quanto gestores são diretamente afetadas pelo ambiente de trabalho.

O aumento de absenteísmo e sinistralidade nas grandes empresas ligaram um sinal de alerta para a saúde e níveis de estresse dos trabalhadores. “As empresas passaram a se atentar mais à qualidade de vida do colaborador por dois principais fatores. O indivíduo hoje passa cada vez mais horas em seu ambiente de trabalho e, em contrapartida, o benefício de saúde é o segundo maior custo nas empresas. As companhias passaram a entender que o bem-estar do funcionário está diretamente ligado a taxas de absenteísmo (falta ao trabalho) e presenteísmo (quando o colaborador está, mas preocupado ou incomodado por questões de saúde, e não produz como poderia)”, conta Tatiana Giatti, diretora executiva da Saúde Concierge, empresa de gestão de saúde que atua em conjunto com corporações, operadoras e corretores. 

“O objetivo é trabalhar diretamente nos indicadores de sinistralidade e de qualidade de vida e bem-estar, a fim de melhorar a condição clínica do colaborador não só no ambiente de trabalho, mas como um todo”.

Tatiana Giatti, diretora executiva na Saúde Concierge

Além disso, a queda nas condições de saúde dos colaboradores acarretou um aumento de custos no orçamento das grandes companhias que passaram a investir mais na qualidade de vida para gastar menos com planos hospitalares. “Ficou mais latente a partir da pressão que as empresas começaram a receber por conta do aumento dos custos relacionados à saúde. Esses custos são impactados pelo índice de sinistralidade, que é o uso do benefício de saúde, e o aumento de preços de serviços, materiais e medicamentos, chamada de inflação médica. Os custos com casos de internação, por exemplo, subiram 80% de 2011 a 2017, quase o dobro da inflação do período, de acordo com a Federação Nacional de Saúde Suplementar (FenaSaúde)”, informa Tatiana.

E não é apenas a melhora na saúde física que as ações refletem. Níveis elevados de estresse afetam as condições psicológicas dos trabalhadores que, muitas vezes, necessitam de acompanhamento profissional. “O conceito de trazer atendimento médico para dentro da empresa ainda é polêmico, muitos acreditam que o consultório ainda é mais efetivo e pode gerar alguma desconfiança por parte do colaborador. Em paralelo a isso, fazemos algumas ações pontais como trabalho com coaching para alguns cargos específicos. Além disso trabalhamos com comunicação visual e workshops chamando a atenção para temas de saúde mental”, diz Karina Callegari.

“Acho que vale medir o nível de estresse em cada empresa, mas o essencial é dar um respiro na rotina constantemente, realizar meetups de assuntos atuais/interesse dos colaboradores, atividades físicas, dia de levar o pet ou os filhos. Trazer um pouco de respiro para a rotina, fazer com que a cabeça funcione de forma mais ampla, em contato com novas ideias, oportunidades”, conclui Vinicius.

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