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Pós-pandemia: o intraempreendedorismo pode impulsionar a inovação nas empresas

Foto: Pixabay
Enquanto muitos negócios sofreram com as consequências da pandemia, tantos outros encontram na própria crise uma oportunidade de se reinventar

Publicado em 08/07/2020

Os impactos causados por uma pandemia são imensuráveis. Além do sofrimento pela perda de vidas, a situação extrema impacta a economia mundial, interrompe negócios, viagens e reuniões e coloca milhões de pessoas em isolamento social. Historicamente, ao mesmo tempo em que uma pandemia repercute nos negócios e na vida das pessoas, também tende a estimular as inovações nas empresas.

Neste sentido, com a retomada das atividades econômicas, seja pelos impactos causados nos negócios ou pela busca de soluções para a crise econômica gerada pela pandemia, a atitude empreendedora será fundamental para as empresas se recuperarem e se adaptarem ao novo normal. Afinal, o empreendedor é visto como aquela pessoa que faz acontecer, e, mesmo diante de uma crise sem precedentes, é capaz de encontrar meios para manter o negócio ou começar outro.

A pesquisa Amway Global Entrepreneurship Report (AGER), realizada pela Universidade Técnica de Munique (TUM) e validada pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), aponta que 56% dos brasileiros desejam empreender nos próximos anos. Destes, 74% são jovens entre 18 e 35 anos. O índice do Brasil é maior que a média global, que está em 47%.

O empreendedorismo é definido como a capacidade de identificar problemas e oportunidades, desenvolver soluções e investir recursos na criação de algo positivo para a sociedade. Diante disso, o intraempreendedorismo, pode ser um importante aliado das empresas na busca por inovação e diferencial competitivo.

Intraempreendedorismo é o ato de empreender dentro dos limites de uma organização já existente. A empresa que se abre para essa tendência, consegue reter aquele colaborador criativo, que poderia sair e abrir seu próprio negócio, oferecendo a ele a oportunidade de empreender dentro da empresa, além de reduzir a rotatividade de colaboradores e manter um time de alta performance.

O intraempreendedorismo é aplicável a organizações de qualquer porte, gerando além de novos negócios, o desenvolvimento de novos produtos, serviços, tecnologias, técnicas administrativas, estratégias e posturas competitivas.

Luiz Barbieri
Foto: Assessoria

“Por se tratar de uma prática que garante sustentabilidade de qualquer negócio, até dos órgãos públicos, eu não diria que o intraeempreendedorismo é aplicável, mas sim obrigatório a qualquer tipo de organização. Em órgãos públicos, por exemplo, quantos já sofreram fusão por necessidades de mercado, por uma instituição possuir tecnologia mais bem desenvolvida para atender as demandas?”, questiona Luiz Barbieri, professor de administração e coordenador do MBA de Gestão de Processos do Ibmec RJ.

Os profissionais com perfil inovador, enxergam no intraempreenderismo a possibilidade de ter uma segurança financeira e a estrutura da empresa à sua disposição, permitindo que seus esforços sejam voltados para o levantamento de novas ideias. Para que os intraempreendedores gerem resultados satisfatórios, é muito importante o olhar atento dos gestores para identificar entre os colaboradores aqueles que possuem perfil para intraempreender.

Barbieri afirma quepor meio de avaliação de competências é possível identificar e potencializar esses colaboradores com perfil de intraempreendedores na equipe. “O processo de recrutamento e seleção deve considerar esses pré-requisitos. Desenvolver essas competências por meio de capacitação continuada utilizando metodologias ágeis, design thinking, canvas, técnicas de otimização de processos – BPM, gestão de projetos e gestão financeira, a fim de medir risco x retorno, incertezas x reconhecimento de oportunidades, risco pessoal x risco corporativo x retorno”, orienta.

Em sua opinião, a empresa que busca ter profissionais intraempreendedores dentro de seu negócio, aumenta a sua capacidade de sustentabilidade. “A cultura corporativa necessita estar voltada para a criação de valor para lançamentos de novos produtos e serviços. A necessidade de se reinventar faz-se necessária e o perfil intraempreendedor é aquele que que é inquieto: busca sempre inovar, a fim de melhorar processos e os resultados da empresa. É questionador: nunca se acostuma com processos falhos e resultados medianos. Corajoso: gosta de desafios e assume responsabilidades. Gosta de correr riscos e por possuir espírito de dono, é engajado e comprometido com o negócio como se fosse dele. Com isso, essa prática, essa cultura organizacional, gera para a empresa benefícios que irão garantir a sustentabilidade do negócio” explica.

Izabela Rücker Curi Bertoncello
Foto: Assessoria

Já para Izabela Rücker Curi Bertoncello, do escritório Rücker Curi Advocacia e Consultoria Jurídica, o principal benefício do intraempreendedorismo é a aceleração das inovações dentro das empresas. “Até pouco tempo atrás, essa técnica era aplicada apenas nas grandes companhias e com muita cautela, porque elas não queriam arcar com os erros vindos da liberdade de os empregados criarem e nem com os riscos de destinar orçamento para financiar as inovações. Mas com a rápida evolução da cultura do “open mind” e do reconhecimento dos diferenciais das gerações dos millenials, o intraempreendedorismo está ganhando espaço”, avalia.

Segundo a profissional, considerando essas questões, as empresas acabam tendo acesso a inovações sem necessidade de buscar parcerias no mercado e por custos muito mais acessíveis. “Da mesma forma, retêm talentos e têm a oportunidade de diversificar seu ramo de atuação. É inegável que em temos de crise econômica mundial, a diversificação de negócios é essencial para a superação dos problemas empresariais”, comenta.

Uma pesquisa encomendada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), demonstra que a inovação será decisiva para acelerar a retomada da atividade e do crescimento da economia no Brasil. Entre as mais de 400 empresas ouvidas, 83% afirmam que precisarão de mais inovação para crescer ou mesmo sobreviver no mundo pós-pandemia. Das empresas consultadas, 68% alteraram de alguma forma seu processo produtivo (74% nas grandes e 66% nas médias), mas só 56% consideram ter inovado, de fato, após essa mudança. Entre todas as empresas pesquisadas, 39% dizem que a mudança empreendida foi uma inovação.

A pesquisa revela ainda que entre as mudanças efetuadas, a mais citada diz respeito à relação com os trabalhadores (90%). Outro dado mostra que a cultura da inovação já vem sendo praticada na maioria das empresas consultadas, entre as quais, 92% informaram que inovam. Por outro lado, das empresas que inovam, só 37% dizem ter orçamento específico para inovação e 33% têm profissionais dedicados exclusivamente aos processos inovativos.

Na opinião de Izabela Rücker a maturidade das empresas brasileiras nessa questão ainda é iniciante. “Muitas empresas continuam focadas em seu dia a dia, deixando de lado a concretização de planos de inovação por acreditarem que o momento de crise não é adequado para arriscar no investimento de novas políticas dentro da corporação. Mas, na verdade, é no momento de crise que surgem as melhores ideias. E várias delas não necessitam de grandes investimentos para serem desenvolvidas. Além disso, as inovações que representam verdadeiros diferenciais eficientes, acabam trazendo até mesmo investimento de fora da empresa, com formação de pulls de empresas, a chamada “join venture”, em que mais de uma empresa participa do desenvolvimento”, analisa.

Para Barbieri, a pandemia trouxe um cenário desconhecido, de ambiguidade, incerteza, instabilidade, imprecisão e indefinição temporária. Para ele, as empresas que se reinventaram de forma ágil, são aquelas que fortaleceram a sua marca, conseguiram vencer a barreira da acomodação da expectativa futura e com foco no cenário, criaram inovações nas formas de atendimento, na produção, na execução de seus processos. Isso porque já possuíam uma cultura corporativa intraempreendedora, facilitando a necessidade de adequação, ampliando horizontes e operando em cenários jamais imaginados. “Se para essas que já possuíam essa cultura arraigada tem sido difícil, imagine para aquelas que ainda acreditam que empreendedorismo corporativo é só para os sócios do negócio. Então, mãos à obra. Construa e reconstrua seu modelo de negócio considerando este momento, desenvolva um projeto inovador, implemente-o, realize reuniões periódicas de lições aprendidas e realinhe os projetos, seu time e a sua cultura. Inove ou morra”, afirma.

Por onde começar o intraempreendedorismo?

O intraempreendedorismo representa um grande desafio para organizações com uma cultura organizacional já estabelecida. Por outro lado, as empresas mais modernas já perceberam que dar autonomia e capacitação aos colaboradores gera resultados positivos superiores ao negócio, além de deixar o profissional mais satisfeito.

Para as empresas que pretendem começar a implementar o empreendedorismo interno, Izabela Rückersugere que elas comecem com o lançamento de campanhas internas para, primeiramente, formar a cultura interna da criação e da confiança do empregado na empresa, no sentido de que suas ideias realmente serão analisadas e de que a autoria será respeitada.

“Muitos empregados sequer sabem o que é intraempreendedorismo. É necessário ensinar por meio de cartilhas, conscientização constante e, porque não, vídeos de endomarketing. É essencial que a empresa tenha termos jurídicos para formalizar as condições de uso e desenvolvimento das inovações propostas. Esses termos devem prever a cessão de direitos autorais pelo empregado à empresa. Esta cessão pode ser total ou parcial e, preferencialmente, remunerada, ainda que a remuneração seja futura e condicionada ao êxito da ideia, à compensação dos custos que a empresa terá e daí por diante”, orienta.

Já Barbieri defende que a empresa comece pela análise de competências de seu time e pela análise de recursos existentes. “Verifique se os perfis existentes possibilitam iniciar um projeto de inovação. Verifique qual tipo de inovação o seu time pode enfrentar, incremental? Ou seja, aplicar inovação em um produto ou serviço já existente? Ou uma inovação disruptiva/radical, ou seja, nova para o mercado? Mas, você possui recursos para realizar esse projeto? Como estão seus processos e os valores organizacionais?”, questiona.

Para o professor, se não houver um trabalho de mudança de mindset dos colaboradores, que precisam deixar de ser um mero executor e passar a repensar o que faz e criar novas formas de fazer, será um valor fake descrito na sua missão, com o qual os colaboradores não se identificam. “Será apenas um texto bonito colado na parede, como na maioria das empresas brasileiras”, argumenta.

Ele também afirma queessa cultura organizacional gera benefícios que irão garantir a sustentabilidade do negócio e lista os benefícios do intraempreendedorismo para as empresas:

  • Menor ritmo de lançamentos de novos produtos e serviços;
  • Maior capacidade de adaptação aos momentos de crise, pela capacidade criativa de adequação dos processos organizacionais;
  • Redução do lead-time – tempo total de execução, pois estão voltados para o resultado global e não para uma atividade específica;
  • A comunicação flui melhor na organização em função da mudança da cultura muito hierárquica, para uma cultura empreendedora em todos os níveis e não apenas do líder de mais alto posto, fomentando geração de ideias e melhorias;
  • Redução de turnover – rotatividade de colaboradores, pois as gerações mais jovens sentem-se desafiadas quando existe a possibilidade de geração de novos produtos e serviços por meio do aumento da autonomia e posição de destaque se o seu projeto for aprovado;
  • Foco no mercado, pois a inovação requer comunicação e pesquisa com os stakeholders de forma constante;
  • Aumento do propósito do negócio na percepção dos clientes com a possibilidade de cocriação, ou seja, o desenvolvimento do protótipo e do produto com a participação dos clientes;
  • Remuneração variável, o que aumenta engajamento/comprometimento dos colaboradores, tornando a empresa desejada em processos seletivos.

Um líder compreende, motiva e colabora com a equipe

Case de Sucesso  

Aviva: exemplo bem sucedido de implantação de um programa de inovação interna

O programa de inovação na Aviva nasceu há 11 anos, com o objetivo de gerar melhorias e novos projetos, dando oportunidade para que todos possam colaborar com ideias. “O principal drive do programa é a experimentação. Acreditamos que uma ideia passa a ter valor a partir da execução e validação da proposta de valor com o cliente ou usuário”, comenta Miguel Diniz, gerente geral de marketing e vendas da Aviva.

Miguel Diniz
Foto: Assessoria

O gestor comenta que atualmente o programa de inovação chamado Desenrola é baseado em teses e desafios do negócio, uma forma de garantir que os esforços para inovação estejam conectados com a estratégia da empresa. “Cada tese é trabalhada por campanhas e desafios específicos, com regulamento que permite ao colaborador enxergar todas as fases do desafio e premiações envolvidas. Mas a imaginação não tem restrição, por isso, em paralelo temos uma campanha de tema livre para ouvir a opinião de colaboradores que possam ter ideias aleatórias”, ressalta.

A empresa afirma que os resultados obtidos com a implantação do programa de inovação foram positivos, e, além do ganho financeiro, ao acumular mais de R$ 70 milhões de Ebitda (Earning Before Interest, Taxes, Depreciation and Amortization) de ganho com projetos em 11 anos, um dos fatores mais relevantes é a cultura de inovação.

“O ambiente ganhou associados mais questionadores, curiosos e ousados para explorar novas ideias. Esse comportamento faz da Aviva uma empresa a frente do seu tempo”, afirma Diniz.

Ele conta que durante a pandemia a área tem contribuído para driblar os efeitos da crise. “Quando começou essa crise, utilizamos algumas práticas recém aplicadas a partir de métodos ágeis, como o trabalho a partir de squads, reunindo profissionais de diversas áreas da Aviva, trabalhando de forma multidisciplinar com base em desafios da crise. A estratégia era envolver pessoas com conhecimento, independência e autonomia de decisão. O time de inovação foi o conector dos squads, impulsionado uma visão livre de estrutura departamental, garantindo comunicação entre os envolvidos e agilidade”, declara.

O gestor revela ainda que antes da chegada da pandemia, a empresa tinha um portifólio com 14 projetos em fase implementação. Mas com a interrupção das atividades, a primeira decisão foi paralisar os investimentos e mergulhar em soluções de enfrentamento à crise, buscando soluções que atendem às novas necessidades de um novo cliente. Na retomada das atividades, Diniz ressalta que o maior projeto em andamento, no momento, é o desenho da nova jornada do cliente.

intraempreendedorismo
Foto: Pixabay

10 mandamentos do empreendedor interno

Confira os 10 mandamentos do intraempreendedorismo, extraído do livro Intrapreneuring Por que você não precisa deixar a organização para ser um empreendedor, de Gifford Pinchot III:

  1. Vá trabalhar todos os dias disposto a fazer o melhor que puder
  2. Negar-se a executar as ordens recebidas faz seus objetivos pararem
  3. Faça todo e qualquer trabalho necessário, independentemente de ser sua função
  4. Encontre pessoas para ajudá-lo
  5. Siga sua intuição sobre as pessoas que você escolher e trabalhe com elas sempre para o melhor
  6. A publicidade aciona o sistema imunológico corporativo
  7. Nunca aposte em uma corrida a menos que você esteja participando dela
  8. É mais fácil pedir perdão que permissão
  9. Seja fiel ao seu objetivo e realista sobre os caminhos para alcançá-lo
  10. Honre seus líderes
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