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De portas abertas para os refugiados

Foto: rawpixel.com / Shutterstock
Empresas se engajam na contratação e capacitação de refugiados

Publicado em 20/03/2020

Em 2018, o número de estrangeiros refugiados de seus países de origem e buscaram o Brasil para recomeçar a vida mais que dobrou. De acordo com dados do Ministério da Justiça, somente entre janeiro e abril daquele ano, a Polícia Federal, órgão responsável pelo registro das solicitações, recebeu 19.429 pedidos de imigrantes, número 161% maior que o registrado no mesmo período de 2017.

A crise econômica e política da Venezuela, que obrigou 1,5 milhão de pessoas a deixarem o país também é um dos motivos para tal aumento. Os cidadãos venezuelanos são recordistas em pedidos de refúgio no Brasil, com cerca de 14.449 solicitações. Logo em seguida, estão os haitianos com 1.428 pedidos deste tipo.

Além  de  ter  que  superar, muitas vezes, situações traumáticas pelas quais passaram em seus países de origem, quando chegam em outra nação os refugiados também encontram diversas barreiras. A cultura, o idioma e, muitas vezes, a xenofobia, infelizmente, são realidade para esse público. E embora precisem de oportunidades para recomeçar a vida, não é sempre que eles encontram as portas do mercado de trabalho abertas. Contudo, felizmente, esse cenário começa a mudar.

Segundo números do Programa de Recolocação Para Refugiados (PARR), promovido pelo Ministério do Trabalho e Emprego e pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), desde o início do projeto, em 2011, o número de empresas cadastradas na iniciativa e dispostas a contratar refugiados aumentou de três para 41.

João Marques, presidente da consultoria EMDOC

“Quando começamos a ação, quase 10 anos atrás, havia muito preconceito. Hoje, percebemos que, por conta do amadurecimento de políticas de diversidade e responsabilidade social, o mundo corporativo começa a entender que esse público é altamente capacitado, determinado e precisa apenas de uma chance”, afirma João Marques, presidente da consultoria EMDOC, que criou o PARR.

BONS EXEMPLOS NASCIDOS NO SETOR

Uma das empresas que abraçou a contratação de refugiados é a rede de hotéis Blue Tree. No final de 2018, a companhia idealizou o programa “Viver sem fronteiras, construindo juntos o bem-receber”, dedicado a ajudar na inclusão social de refugiados. Além de ofertar vagas de trabalho para funções como arrumadeira/arrumador, o Blue Tree desenvolveu um cronograma de treinamentos para capacitar seus sete profissionais, vindo de países como Venezuela e Congo.

Chieko Aoki, presidente da Blue Tree Hotels/ Foto: Divulgação

“O programa foi planejado sob os pilares do bem-receber, bem-servir e bem-cuidar, conforme rege a alma Blue Tree. Mais do que apenas oferecer uma oportunidade de trabalho, com plano de carreira e todos os benefícios, objetivamos o resgate da esperança e que os participantes se sentissem acolhidos pela nossa equipe”, afirma Chieko Aoki, presidente da Blue Tree Hotels.

A  turma,  que  se  formou  em novembro do ano passado, recebeu capacitações em conteúdos relacionados à cultura, valores, missão e apresentação pessoal, além de exercícios direcionados para a função de governança. Os participantes também puderam acompanhar palestras com Francisco Dalsenter, sob o tema “Em busca da felicidade“, dinâmica sobre “temperamentos”, monitorada pelo Grupo Netas, e treinamento de postura e empregabilidade, aplicados pela Fox Time.

De acordo com Chieko, a rede Blue Tree tem um longo histórico de ações solidárias e iniciativas como o programa de refugiados, que são conectadas com o propósito da empresa. “Estamos na hotelaria para cuidar das pessoas. Cuidamos dos clientes, da nossa equipe e todos os demais envolvidos diariamente em nossas operações. E a chegada dos colaboradores refugiados impacta positivamente em todos os sentidos, pois há uma troca cultural através da qual eles aprendem sobre os nossos hábitos e costumes, ao mesmo tempo em que também descobrimos um pouco mais sobre as características de seus países”, completa a executiva.

Outra empresa que também resolveu se engajar no tema é a gigante do varejo C&A, que conta com sete funcionários refugiados, de países como Angola, Bolívia, Venezuela e Haiti.

Márcia Costa, vice-presidente de Gente & Gestão da C&A
Márcia Costa, vice-presidente de Gente & Gestão da C&A / Foto: Divulgação

De acordo com Márcia Costa, vice-presidente de Gente & Gestão da C&A, desde o final de 2017 a empresa ampliou a contratação desse público para as lojas e centros de distribuição por meio de uma parceria com a ONG Missão PAZ. “Somos uma empresa feita por pessoas e para pessoas e, por isso, promovemos a inclusão e valorização da diversidade junto a nossos colaboradores, clientes e parceiros. Acreditamos que um time diverso contribui para a melhora do clima organizacional, uma vez que as mensagens principais são de que a companhia pratica o respeito, a interação, o diálogo, a colaboração e o acolhimento”, afirma Márcia.

Em 2018, por exemplo, a empresa realizou uma feira gastronômica no escritório central, em Barueri (SP), com barracas de comidas típicas dos países de origem desses colaboradores, estimulando a integração entre os funcionários de diferentes nacionalidades. “Ações como essa reforçam o ‘Nosso Jeito’, isto é, o DNA da C&A, uma marca diversa, inclusiva, acolhedora e divertida, além de contribuir para a manutenção de um ambiente humanizado e descontraído”, diz Márcia.

A executiva afirma ainda que companhias de varejo, que são as principais empregadoras do Brasil, tem um papel fundamental na contratação e inserção de refugiados. “O varejo é a porta de entrada no mercado de muitas pessoas, sobretudo refugiados. Diante deste cenário, entendemos o nosso papel de empresa, já que contamos com mais de 15 mil funcionários em todo o País”, diz Márcia.

O pensamento é complementado por João Marques, da EMDOC. “A área de serviços, restaurantes, varejo e hotelaria é a grande empregadora porque precisa de mão de obra disponível. Mas não são os únicos. Embora a imagem de imigrante seja alguém sem formação, recebemos muitos profissionais altamente qualificados. Cerca de 25% possui ensino superior, por exemplo. Geralmente, eles aceitam cargos mais baixos porque querem recomeçar”, afirma João.

Os desafios para os refugiados

De acordo com João Marques, superada a barreira do preconceito, os refugiados ainda enfrentam dilemas, como a burocracia do Brasil. “Nós somos um dos piores países para revalidação de diploma. Menos de 1% dos imigrantes consegue. Se o Einstein viesse para cá ele não teria o diploma validado”, afirma. Outra dificuldade é a questão do idioma e da cultura. “Embora já tenham diversas instituições que disponibilizam cursos para refugiados, a adaptação ainda é difícil. É preciso orientar esse estrangeiro, uma vez que cultura, horário de trabalho, valores, pessoas e direitos. Tudo é diferente”, afirma João.

Uma dessas instituições que auxilia nesse processo de integração dos refugiados é a consultoria de treinamento e desenvolvimento Grupo Netas. A companhia ajudou no processo de capacitação de refugiados da rede Blue Tree e da empresa de moda Zara.

Fábio Abate, diretor do Grupo Netas / Foto: Divulgação

De acordo com Fábio Abate, diretor do Grupo Netas, a escolha dos treinamentos depende da necessidade do perfil de cada refugiado contratado. “O público da Zara, por exemplo, não possuía experiência nenhuma no mundo corporativo, então o foco era introduzir esses profissionais a esse contexto. Já os trabalhadores da Blue Tree eram mais experientes e já haviam trabalhado em seus países de origem, então o objetivo se tornou adaptá-los à cultura da empresa”, afirma.

Assim como João, Fábio aponta que embora tenhamos o estereótipo de que o refugiado não tenha qualificação, muitas vezes é exatamente o oposto. “Algumas empresas até redirecionam esses profissionais porque são contratados para vagas inferiores a sua experiência”, afirma o diretor do Grupo Netas. Porém, ele ressalta que mesmo aqueles que não se encaixam nesse perfil devem ser acolhidos e capacitados.

“É uma questão de autonomia, de dignidade. É importante, sempre que possível, ajudar a transformar vidas através da educação corporativa. Imagine estar fora da sua casa, da sua cultura, não por escolha? É humano acolher e preparar esse indivíduo para que ele se sinta mais digno e produtivo”, completa. No final, é uma relação ganha-ganha para todos.

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