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Home office e o esgotamento profissional

Foto: Gerd Altmann / Pixabay
As transformações na rotina de trabalho geradas pela pandemia, podem contribuir para o aumento no número de casos da síndrome de burnout

Publicado em 23/06/2020

Os efeitos do excesso de trabalho na saúde mental, começaram a ganhar mais atenção recentemente, sobretudo devido ao aumento no número de casos de profissionais afastados pela síndrome de burnout, também chamada de síndrome do esgotamento profissional.

Como a síndrome não exige notificação compulsória, o Ministério da Saúde não consegue contabilizar com precisão o número de brasileiros que são afetados por ela. Segundo dados da Secretaria de Especial de Previdência e Trabalho, na comparação entre os anos de 2017 e 2018, o crescimento de benefícios de auxílio-doença com a doença chegou a 114,80%. O número de benefícios concedidos pulou de 196 para 421.

Já uma pesquisa realizada pela International Stress Management Association (Isma-BR), em 2018, calcula que 32%, mais de 33 milhões de trabalhadores no país, apresentaram a síndrome. Em um ranking de oito países, os brasileiros são maioria entre chineses e americanos, ficando atrás apenas dos japoneses, com 70% da população atingida.

O que é a Síndrome de Burnout?

O site do Ministério da Saúde apresenta a seguinte definição para a Síndrome de Burnout ou síndrome do esgotamento profissional: “um distúrbio emocional com sintomas de exaustão extrema, estresse e esgotamento físico resultante de situações de trabalho desgastante, que demandam muita competitividade ou responsabilidade”.

A principal causa da doença é justamente o excesso de trabalho. A síndrome é comum principalmente em profissionais que atuam diariamente sob pressão e com responsabilidades constantes. Policiais, professores, jornalistas, médicos e enfermeiros estão entre os profissionais mais afetados.

A síndrome de burnout foi oficializada recentemente pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como uma síndrome crônica. Sua definição, agora mais detalhada, está incluída na 11ª Revisão da Classificação Internacional de Doenças como um fenômeno ocupacional e deve entrar em vigor em 1º de janeiro de 2022.

Segundo a publicação, burnout é: “uma síndrome conceituada como resultante do estresse crônico no local de trabalho que não foi gerenciado com sucesso”, caracterizada por três dimensões:

  • sentimentos de exaustão ou esgotamento de energia;
  • aumento do distanciamento mental do próprio trabalho, ou sentimentos de negativismo ou cinismo relacionados ao próprio trabalho;
  • redução da eficácia profissional.

A publicação explica que burnout se refere especificamente a fenômenos no contexto ocupacional e não deve ser aplicada para descrever experiências em outras áreas da vida.

Foto: Pixabay

Os efeitos do home office na saúde mental

Uma pesquisa do Banco Original realizada em parceria com a consultoria 4CO, buscou compreender como os brasileiros têm lidado com a experiência de trabalho remoto na quarentena. O levantamento feito com 695 moradores do estado de SP, aponta que 70% consideram ter mantido uma produtividade igual ou maior do que a anterior; 59% consideram que têm trabalhado muito mais horas diárias; e mais da metade dos entrevistados, 57% avaliam a experiência como muito cansativa.

A pesquisa revelou ainda que 70% das pessoas em regime de teletrabalho consideram que produzem igual ou mais que o período antes da pandemia.

Celso Braga – Foto: Assessoria

 Celso Braga, psicólogo e mestre em psicodrama, acredita que possivelmente haverá um aumento no número de pessoas com esgotamento profissional. “A exaustão extrema vem acontecendo diante de situações de trabalho desgastantes, como por exemplo, muitas agendas virtuais, necessidade de entregar os resultados em um novo formato ainda desconhecido, cobranças por demandas que estavam paradas ou eram postergadas e que agora voltaram para serem realizadas, e resultados que em muitas empresas não está vindo no mesmo nível que foi projetado”, analisa.

Diogo Lara – Foto: Assessoria

Já Diogo Lara, médico psiquiatra, neurocientista, e CEO e fundador do Cíngulo, aplicativo de terapia guiada que ajuda no autocuidado emocional das pessoas, o home office por si só, não é responsável pelo aumento nos casos de síndrome de burnout, desde que seja uma escolha. No contexto atual, para a maioria das pessoas, foi uma imposição a ser implementada da noite para o dia. “Houve pouco tempo para se adaptar. Além disso, a pandemia trouxe uma série de dificuldades que estressam a nossa vida além do trabalho”, observa.

“A pressão por ficar empregado pode levar a um estresse. Aqui juntamos excesso de trabalho, com novos aprendizados rápidos, com cenário instável e às vezes, resultados abaixo do esperado. É preciso muita força emocional para lidar com tudo isso de uma tacada só. Os principais distúrbios iniciais se percebem em uma qualidade do sono pior, níveis de ansiedade e agressividade aumentados” complementa Celso Braga.

Para Diogo Lara, a situação de pandemia pode contribuir para o desenvolvimento da síndrome de burnout, porque são muitos ajustes para serem feitos um pouco tempo.

“Primeiro foi preciso abrir mão de hábitos que regulavam o ritmo do dia a dia, como se locomover e ter horário e local determinado de trabalho. Leva tempo até criar novos hábitos que funcionem. Em segundo lugar, estar longe do local de trabalho dá uma sensação de ter menos controle do que está acontecendo e nos priva da interação social que é fundamental para a nossa autorregulação emocional. Em terceiro lugar, há um acúmulo de outros estressores, como a preocupação com a covid-19 e ter de cuidar de crianças em casa, por exemplo. Mas a questão fundamental por trás da burnout está no colaborador sentir que precisa a toda hora provar o seu valor e não mede esforços para atingir as expectativas, sejam suas ou dos outros, por mais altas que sejam”, analisa o profissional.

Como as empresas podem agir para prevenir o aumento no número de casos da síndrome do burnout?

Em tempos de pandemia poder trabalhar em home office é, sem dúvida, um privilégio. No entanto, trabalhar em casa não significa trabalhar menos, pelo contrário. E, para aqueles que têm de dividir o espaço com filhos e família, manter o equilíbrio emocional, pode ser um desafio ainda maior.

Celso Braga defende que para evitar o aumento de casos entre colaboradores, sobretudo neste período de pandemia, a primeira ação das empresas deve ser a de monitorar as condições de trabalho e levar em consideração que deixar a situação geral de pressão aumentada, não vai ajudar a empresa a entregar mais e melhor.  “A conversa sobre como cada um está e o monitoramento das percepções sobre estados de estresse, precisa ser uma prática mais frequente. Ajustar o balanço entre esforço, desgaste e estresse com períodos de relaxamento das tensões, precisam ser incorporados a agenda dos líderes e do RH”, orienta.

Diogo Lara acredita ser necessário reconhecer que se trata de um momento atípico na nossa sociedade e que é importante ter em mente que cada pessoa pode estar sendo impactada de maneiras muito diferentes pela pandemia. “Nem todas as pessoas e setores conseguem entregar o que seria ideal, apesar de sabermos que outros setores estão desempenhando acima do seu habitual com a mudança para o home office. É muito diferente trabalhar quando o seu pai está no hospital devido à doença, por exemplo. Portanto a principal postura da empresa para prevenir o esgotamento dos seus colaboradores é ter um genuíno cuidado e dar o devido apoio frente a situações que eles estiverem passando. O colaborador que se sente cuidado e compreendido, tem menos chances de desenvolver burnout e vai ser grato para sempre à empresa, estreitando o seu vínculo com ela”, afirma.

Leia também: Trabalho pós-coronavírus: principais tendências nas relações contratuais

Os gestores também precisam de atenção

A pandemia afeta a rotina de todos os colaboradores, e com os gestores não é diferente. Afinal, trabalhando em casa ou remotamente, alguns hábitos adotados no trabalho se perdem, como aquela pausa para um bate-papo mais descontraído no café ou a troca de ideia com os colegas para resolver alguma pendência, pois o gestor além de estar atento à equipe e a si mesmo pode ele próprio estar sofrendo da síndrome do esgotamento profissional.

“A liderança está bem estressada e sobrecarregada pois, tem de responder ao negócio, apoiar os colaboradores, achar saídas para as entregas, etc. Se o gestor estiver bem, poderá ouvir mais abertamente como o seu time de liderados está e falam se for perguntado com genuíno interesse de cuidar do assunto, como também ajudam com sugestões para aliviar as tensões”, pondera Celso Braga.

Para ele, não é nada fácil, visto que as queixas antes da pandemia sobre os gestores é que eles dedicavam pouco tempo para ouvir a equipe, se focando muito nas entregas e resultados. “Era e continua sendo preciso mudar a atitude da gestão principalmente agora em meio à pandemia”, conclui.

Diogo Lara aposta na prevenção como a melhor alternativa para prevenir o aumento de casos de esgotamento profissional nas empresas.

“Geralmente os casos só se tornam aparentes quando já estão avançados demais. Nessas situações é importante oferecer apoio psicológico e estabelecer um acompanhamento mais próximo. Mas o melhor é poder fazer um trabalho preventivo e de diagnóstico precoce de sofrimento emocional. É aí que entram os aplicativos de autocuidado emocional e empresas de telepsicologia”, comenta.

O suporte emocional precisa continuar mesmo após a quarentena

A área de recursos humanos das empresas é fundamental para essa adaptação ao novo normal. Essa nova realidade tem evidenciado o desafio das empresas em cuidar do bem estar dos colaboradores, acompanhar a transição da equipe para home office, capacitar os líderes para gerir suas equipes remotamente, além de ajudar a manter o equilíbrio emocional das pessoas e transmitir tudo isso para as equipes à distância. As empresas devem se preparar para receber os colaboradores após o trabalho em home office para que eles se sintam seguros novamente no ambiente.

Para Celso Braga, a síndrome de burnout faz a pessoa ficar mais isolada e solitária na hora de enfrentar os problemas. Por isso para receber os colaboradores e garantir que as pessoas sintam-se seguras, após o fim da quarentena, as empresas devem estar abertas ao diálogo constante.

“Primeiro devemos levar em conta que há muita gente insegura. Há pessoas que estão levando bem a situação e não vão estranhar a volta ao ambiente profissional ou mesmo a continuidade de um maior tempo dedicado a home office. Outros no entanto, estão pressionados com a volta, seja porque estão com medo, já que voltaremos ainda sem garantias do fim da Covid-19, outros porque ainda vão estar muito pressionados na entrega de resultados para recuperar as perdas e outros porque terão de passar por uma nova adaptação na forma de trabalhar. Se a recomendação antes era conversar uma vez por mês para alinhar o que as pessoas sentiam, agora precisamos falar semanalmente e até diariamente em alguns casos extremos. A finalidade é encontrar ações conjuntas que nos levem a superar situações desgastantes no trabalho”, orienta.

Diogo Lara também avalia que o diálogo é importante para estimular os colaborares na criação de regras e soluções para os desafios da pandemia.

“O primeiro aspecto a ser respeitado é garantir a segurança física. Como é uma situação nova, recomendo que haja um diálogo próximo entre todos para buscarem as melhores soluções e ajustes em vez de ser algo simplesmente determinado de cima para baixo. Engajar os colaboradores na busca de soluções faz com que eles se sintam pertencentes e respeitem as regras criadas por eles mesmos”, sugere.

As empresas que optarem pela adoção do home office, mesmo após o fim da quarentena, também devem adotar medidas para prevenir o esgotamento profissional.

Celso Braga enfatiza que o que desgasta e pressiona ou gere estresse profissional não é o home office, mas a falta de uma organização entre demanda e capacidade de entrega da pessoa. “Se a carga de trabalho, as prioridades e os resultados estão alinhados entre si, podemos ter uma área de tensão produtiva que não leva a síndrome de esgotamento profissional. Parece simples, mas não é. Ajustar os elementos: resultado necessário, capacidades e prioridades ou tempo, precisam de dedicação por parte de quem planeja as atividades profissionais. Sempre foi necessária esta dedicação, planejamento e de alguma forma alguns líderes ou empresas a negligenciaram. Esta negligência levou a condições que levaram uma parte das pessoas a síndrome de burnout, agora a tendência é que haja mais pessoas vulneráveis às condições de estresse e pressão. Logo, é preciso olhar com mais atenção para o ajuste de elementos que podem provocar o esgotamento profissional”, enfatiza.

Diogo Lara acredita que o mais importante é investir na saúde emocional dos colaboradores e criar uma cultura de confiança entre todos. “Essas atitudes reduzem o surgimento de transtornos psiquiátricos ao mesmo tempo em que aumentam a produtividade e o bem-estar dos colaboradores”, conclui.

Ainda: Recrutamento, seleção e treinamentos em tempos incertos

Ações que as empresas podem adotar para manter a saúde física e mental da equipe e reduzir o impacto do isolamento social:

  • Faça a hora do almoço e café virtuais.
  • Ofereça aulas virtuais com exercícios de respiração.
  • Tenha um canal para ouvir as demandas dos trabalhadores e passar informações sobre o que acontece dentro da companhia.
  • Mantenha por videoconferências, as mesmas reuniões que seriam feitas no dia a dia da equipe.
  • Promova happy hour virtual
  • Invista em softwares que não deixam que o colaborador fique conectado além da jornada de trabalho permitida.

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